Em “de rerum natura” (Terceiro movimento), intensa e envolvente, uma das mais recentes obras de Juan Domingues, o artista, inspirando-se em Nietzsche e Tito Lucrécio Caro, parte de um ponto em que a base seria “O mundo sem deuses. No sentido figurativo, são ninfas e traduzem-se para o sentido da fertilidade”, explica Juan, referindo-se ao início do processo criativo. [“De rerum natura (Sobre a natureza das coisas)” – a Relógio d’Água tem uma tradução completa bilingue – escrito no séc. I a.C. por Lucrécio, proclama a realidade do homem num universo sem deuses. Nietzsche e Freud, tentando libertar o homem do temor à morte, também beberam deste epicurista. Lucrécio afirma que o medo da morte criou o mito da imortalidade da alma; apresenta a teoria de que a luz visível seria composta de pequenas partículas e sustenta a ideia da existência de criaturas vivas invisíveis capazes de causar maleitas. Facto é que a sua obra antecede muitos conceitos da física moderna, da microbiologia, assim como da psicologia contemporânea.)] Retomando o meu ponto de partida – a pintura de Juan Domingues, onde figuram ninfas – como mote para evocar o Dia da Mãe, relembro que a mais antiga comemoração é mitológica. Na antiguidade a entrada da primavera era festejada em honra de Rhea, mãe dos deuses. Ninfas na mitologia grega, seriam espíritos naturais femininos, ligados a um local ou objeto particular da natureza, fadas sem asas, leves e delicadas. Embora mortais as ninfas tinham vida muito longa. Benfazejas, tudo propiciavam aos homens e à natureza e eram a personificação da graça criativa e fecundadora. Das civilizações orientais, indo ao sânscrito, Shaktí, vocábulo que se refere ao poder feminino, significa “energia”. Feliz Dia da Mãe, não só às mães, mas a todas as mulheres. Que energizam, que fazem acontecer, que permitem que a humanidade se perpetue e que têm o “dom” de sanar e nutrir, num mundo sem deuses.
Vânia Cardoso
