Eros e Psique

É desde a sua origem que a Psicanálise tem vindo a pensar com o mito e a partir do mito. O mito é a forma simbólica, de organização social nas comunidades originais e pode ser a expressão de questões para nós vivas, ainda hoje em dia. 

O dia “dos namorados” surge-me como pretexto ou motivo para comentar o mito fundador da psicologia: Eros e Psique. 

Recorro então à narrativa clara e envolvente de Cristian Dunker, escritor e psicanalista contemporâneo. Desta história grega, compilada no séc II d.C. por Lúcio Apuleio, sabemos que numa cidade existia um rei com três filhas, sendo que a mais nova era conhecida pela sua incrível beleza. Psique, a tal ponto era bela que as irmãs casaram e ela não. Os seus pretendentes ficavam tão fascinados com a sua imagem que preferiam adorá-la a amá-la. Preferiam venerá-la a casar-se com ela. (Logo neste primeiro momento deparamo-nos com esta ideia de que há uma certa afinidade entre psyché e a dimensão da forma. A forma atraente. Psyché, do grego, significaria sopro, aquilo que precisamente não teria forma, e mais tarde viria a significar alma.) 

Psique, com essa qualidade, desperta a ira de Afrodite, deusa grega da beleza, que por sua vez, com ciúmes pelo fato dos humanos reverenciarem a beleza de uma simples mortal, estabelece uma maldição sobre a cidade. (E isto é típico das lendas gregas e das tragédias, onde há, no seu início, um desequilíbrio, um excesso, um marco que determina o desenrolar dos conflitos). Afrodite decide então que o seu filho, Eros, deus do amor, irá tumultuar a cidade.

De recordar que os gregos distinguiam quatro categorias de amor: Ágape, o amor considerado divino e incondicional; Cáritas, amor à piedade e à caridade; Philia, amor fraterno e que caracteriza as relações entre as pessoas;  e Eros – o amor passional, romântico, aquele amor que se relaciona com o desejo e com os sentidos.

Eros era conhecido como um deus, digamos, corruptor da ordem pública. Um menino com asas que criava tumulto onde quer que fosse, um causador de confusão. Este deus Eros, do desejo, teria então como demanda importunar Psique (seja para nós, leitores, psique-sopro, psique-alma ou Psique, a jovem mulher mortal e bela). Perante isto, o rei entende que a forma de se libertarem desta tormenta seria precisamente sacrificar a sua filha Psique, deixando-a só no cume de uma montanha, onde se supunha que, mais tarde ou mais cedo, viria um dragão ou uma espécie de criatura monstruosa buscá-la. Ocorre então que, aquando esse momento de sacrifício, Eros, acidentalmente, baralha-se com as próprias flechas e, também fascinado pela forma belíssima de Psique, decide levá-la para o seu palácio.

No palácio, Psique acorda e é servida por um conjunto de aias que são chamadas de As Vozes. Vozes essas como por exemplo o hábito, a inquietação, a tristeza. – Todas essas vozes que habitam Psique, ou que estão ao seu redor, conferem este formato tão interessante e curioso da dimensão da alma humana, que pode não ser permanentemente uma unidade, mas que pode ser uma multidão de vozes, de sopros, de diferentes demandas ou de partes comunicantes entre si, através desse vento que definiria a própria psique.

As Vozes, no palácio, atendiam, inclusivamente, os desejos não formulados da princesa. Psique vê-se atendida e servida pelas vozes, de imediato. Ao mesmo tempo, durante a noite, enquanto dorme e perde a consciência, Psique recebe a visita de Eros, então apaixonado por ela, para dormirem juntos. A única condição exigida pelo “visitante” seria a de que só se poderiam amar no escuro.

Psique jamais poderia descobrir e ver a face de Eros. – voltamos ao problema das formas, do olhar; de como, de algum modo, a beleza física se encontra, novamente, ligada e intrincada no destino da jovem mortal.

Os dois amantes mantêm os seus encontros noturnos até ao momento em que as duas irmãs da princesa começam a frequentar o palácio e a dizer coisas “aos ouvidos” de Psique; por exemplo, que poderia estar a dormir com um monstro, que poderia estar a ser enganada, que poderia estar a incorrer num grande engodo. – Notamos, pois, um outro traço da alma que é essa possibilidade de se deixar influenciar pelos outros e a própria dimensão da intriga, no humano, tantas vezes cunhada pela inveja e pelos ciúmes.

As irmãs, encorajam-na a transgredir o único mandamento, o de não olhar para aquele que dorme com ela. Então, certa noite, Psique socorre-se da luz de uma lamparina para iluminar a escuridão e dirige-se ao quarto de Eros. Nesse momento, Psique depara-se com um ser radiante. – Como num caso de epifania, o momento em que um deus se revela, um momento em que o humano tem acesso ao divino. Isso é algo estritamente proibido e até problemático em toda a mitologia grega. – Entretanto, ao tremor da mão que segura a lamparina, cai uma gota de óleo no corpo de Eros que desperta, e com ele desperta também a sua ira, acabando por expulsá-la do seu palácio. E aqui se inicia uma outra fase – a luta de Psique para reconquistar o que perdeu. (Este movimento é de grande importância. Nos estudos sobre a alma humana, recorrentemente encontramos este movimento, entre a alienação e de retorno a si; de esquecimento e de lembrança; de exílio e de reencontro.)

Afrodite, então, impõe a Psique 4 trabalhos a cumprir, para que possa, enfim, reconciliar-se com Eros – com o desejo. 

O primeiro deles seria separar durante uma noite um conjunto de grãos misturados: favas, lentilhas, ervilhas. Denotamos aqui um dote, uma faculdade do humano, a da discriminação, da separação, da escolha. Psique chega a acreditar que não seria capaz, mas tem a ajuda de formigas que, a par consigo, trabalham durante toda a noite. 

O segundo trabalho seria reunir uma porção significativa de lã de carneiros bravos – um desafio que tem a ver com a questão da coragem, com o enfrentar o medo. Os passarinhos ajudam-na, mostrando-lhe o caminho por onde ela deverá procurar. 

A terceira provação, seria colher a água dos dois rios do inferno; e, neste desafio, é a própria águia de estimação de Zeus que a ajuda a cumprir o trabalho. 

A última e também a mais difícil prova, implicava ir até Hades, dirigir-se a Perséfone, e trazer de lá uma caixa com um fragmento da beleza divina. Aconselhada pela torre de fogo, consegue trazer a caixa contendo o fragmento de beleza divina. E neste ponto, vamos deparar-nos com uma espécie de repetição. A repetição do mesmo erro. Uma repetição do que já é sabido. Uma repetição de dimensão trágica: porque Psique decide abrir a caixa. Nesse momento saem de dentro da caixa todos os males, e Psique volta a ser descoberta como alguém que não cumpre e que falta ao prometido. E Psique segue para uma segunda pena, como se repetisse a perda do seu grande amor, a perda de Eros. 

E, nesse momento, intervém Zeus, que diz (segundo a versão de Junito de Souza Brandão, classista brasileiro): “Julgo ser conveniente refrear de uma vez por todas as desregradas paixões de sua juventude.” – referindo-se a Eros. O seu julgamento começa por Eros, e não por Psique. “Chega de se ouvir falar nos seus escândalos diários no mundo inteiro. Chegou o momento de retirar-lhe qualquer oportunidade de praticar a luxúria.”, esse excesso de Eros, “Cumpre aprisionar-lhe o temperamento lascivo da meninice nos laços do Himeneu”, este último, deus do casamento, filho de Apolo com Afrodite.

Portanto, Zeus dá a Psique a absolvição, sem mais tormentas, para que se possa reunir com Eros e pacificá-lo. 

Numa primeira análise, poderemos achar-nos diante de um final feliz e linear. Ainda assim, prestemos atenção a esta conflitualidade subjacente, que virá a ser recuperada e explorada por Freud. Quem é Psique? Quem é psyché? Psique, psyché, é aquela que pacifica o desejo, que está às voltas com uma tensão constitutiva, dividida entre o que ela é, Psique (ou psyché) e aquilo que diz respeito à dimensão do desejo, ao que se quer. O mito encerra esta dimensão primária da subjetividade da alma humana, e a ele subjaz, o compromisso entre as formas das imagens, as formas narcísicas, digamos assim, e a sexualidade com o desejo, aquilo que cria o mistério. 

É fundamentalmente esse o sentido por detrás da narrativa. O sentido que se refere à alma não como uma instância fixa e definida, mas antes como algo que envolve um percurso, que envolve um trabalho. Assim a alma se nos apresenta neste mito: Um percurso de descobertas e de inquietações. Como na aventura entre Eros e Psique.

Trilhas do Universo – Diogenes Junior

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