Hoje é o nosso dia.
Sei que todos nós temos o potencial de sermos felizes. Sei também que todos os seres são sujeitos à adversidade. Todos os seres precisam de um suporte, a dada altura, todos os seres beneficiam do convívio e do olhar atento de outros seres. Creio também ser possível que todos os seres se recuperem.
Desde muito jovem que pensava os terapeutas com muita admiração e respeito. E questionava-me de que forma iria conseguir desenvolver essas funções, esse papel. E parti há 10 anos para este caminho de aprendizagem e descoberta das competências humanas e éticas e dos atributos do terapeuta – que afinal é, antes de terapeuta, pessoa. Para participarmos em qualquer relação transformadora, temos primeiro que devolver a humanidade a nós mesmos, tornarmo-nos mais pessoas.
Hoje, ao celebrar este nosso dia, sinto uma profunda gratidão pelas pessoas que fazem parte desta caminhada, que trabalharam a par comigo, num percurso de evolução e crescimento. Onde tive oportunidade de desconstruir a ideia de Eu e de poder entender que mais importante que a ideia de ter um Eu, é a ideia de estarmos no mundo, ligados no mundo, na relação. Fluída e viva, entre os sistemas vivos; onde pude entender que a natureza do nosso pensamento envolve todo o corpo, intrinsecamente ligado ao emocional. E que as emoções crescem em complexidade na relação. São vida, são recurso à vida, fortalecem os laços e os vínculos entre as pessoas, arquitetando as próprias pessoas. Sinto e invisto essa enorme gratidão por quem chegou até mim e se abriu à criação de uma aliança, à partilha, à comunhão, numa relação segura, autêntica, de compromisso, permitindo um processo de transformação para os dois lados, permitindo-se crescer no espaço dessa relação, onde simultaneamente também eu cresço e me transformo a cada dia. Afinal a transformação é sempre um processo relacional. Sempre que uma pessoa se transforma a par connosco, nós transformamo-nos também.
E estes são laços que passam a fazer parte também das nossas histórias de vida. Devolvem-nos a nossa própria humanidade. Tornam-nos cada vez mais completos, a cada renascimento, a cada salto, na medida em que nos permitem auto-esculpir, auto-modelar e experimentarmos ser o ser humano que queremos ser. Permitem-nos procurar, de entre muitas possibilidades, o caminho que elegemos para seguirmos, como um propósito. E eu tenho a sorte de viver neste privilégio em que a minha profissão me torna a cada dia mais humana, onde posso explorar, aprender e desenvolver este sentido de respeito, de conexão e de cuidado para com o outro; e o senso de um auto-cuidado, com algo basilar, também.
Vânia Cardoso

