Para que (nos) servem as Personas?

Quais são as suas máscaras? Qual o seu verdadeiro rosto por detrás delas?

E se toda a nossa vida fosse um disfarce?

E se eu dissesse que também eu, como qualquer outra pessoa, sente fúria, insegurança, medo? E se eu disser que também eu, como tantas outras pessoas, tem pensamentos intrusivos, bizarros, melancólicos?

E se eu disser que nos damos a conhecer não apenas através de uma face, mas de várias facetas. Personas.

Para que (nos) servem as personas?

Persona vem do latim “per sonare”; que significa “soar através de”.

Assim eram as antigas máscaras usadas nos antigos teatros gregos, para interpretar determinados personagens que eram apresentados ao público.

Dentro do contexto da psicologia clássica, as personas seriam as máscaras que o ego usa para se apresentar ao mundo externo, perante o mundo externo. Seriam as partes que me compõem – ao Self – e que o Ego de alguma forma deseja mostrar aos outros. E há outras zonas, outros territórios, outras partes do Self que nós não mostramos a ninguém. O que os outros vêem de nós, relativamente àquilo que partilhamos, exibimos, mostramos, evidenciamos, é o que, em grande parte, desejamos que os outros vejam.

Mostramos múltiplas facetas de nós, que representam algo de nós, mas não nos representam inteiramente, como um todo. O que é figura? E o que é o fundo? E o que somos nós, no fim de tudo? Somos algo para além dessas diversas partes, que se vão revezando no seu destaque.

A Persona funciona, então, como um compromisso entre o indivíduo e a sociedade. Nós assumimos papéis, assumimos determinadas funções em função de certos contextos, e trocamos de papéis em função das circunstâncias. Eu assumo um papel, respondo por um nome, um título, por exemplo, um determinado comportamento, uma posição na família, numa hierarquia empresarial, no contexto profissional, ou perante o meu marido, os meus filhos, os meus pais, os meus clientes. Assumo uma determinada imagem que é criada; e a partir dessa imagem, dialogo com o mundo.

Contudo, a Persona, as Personas não representam aquilo que nós somos. Antes, elas representam aquilo que os outros pensam, e que nós mesmos pensamos, que somos.

Elas não são o nosso verdadeiro eu. Elas são a forma como nos apresentamos ao mundo, como nos posicionamos nele.

E não é inadequado ter-se personas. As personas necessitam existir, são necessárias e úteis, servindo uma função que nos é conveniente. Como é que nós poderíamos comunicar uns com os outros, se as personas simplesmente não existissem?

No entanto, colocam-se duas questões delicadas quando nos referimos à Persona. Uma delas é a super-identificação com a Persona. Ocorre quando nós nos sobre-identificamos com a máscara que usamos; ficando nós presos a ela, fixados nela. Já voltaremos a este ponto.

A outra questão relativa à persona, seria precisamente a atitude diametralmente oposta: a dissolução completa da persona, e a imersão do ego no seu próprio mundo interior sem sequer conseguir dialogar com o mundo externo. Como se houvesse uma desconexão do Self relativamente ao mundo externo, ficando aquele ser operando meramente a partir da sua atitude interior. E nessas situações, essas pessoas podem efetivamente correr o risco de não se conseguir conectar com o mundo, de não conseguir desenvolver iniciativas e projetos, porque aí falharia a persona como facilitador do diálogo com o exterior – que cumpre justamente essa função: a de nos colocar em contacto com os outros, com o mundo exterior. Então a Persona seria como que um mediador entre o Ego e o Mundo Exterior.

Todos vestimos várias personas ao longo da nossa vida, e inclusive ao longo do dia. Tratam-se de diferentes papéis que precisamos exercer perante a sociedade. Nem sempre podemos reger-nos pelo princípio do prazer e simplesmente fazer aquilo de que temos vontade. E é algo incrível nós podermos criar personagens ao longo da nossa vida, olharmos para a nossa história de vida como que dividida em fases, ou em diferentes narrativas, na grande narrativa que é a vida, com diferentes volumes e diversos capítulos. Debruçamo-nos sobre personagens, arquétipos, contextos, situações. Encerramos ciclos. Recomeçamos. Reinventamo-nos. Importa é não esquecer de que nós somos os autores, e não os personagens. Se nos sobre-identificamos com os personagens que criamos, que encenamos, é como que fiquemos reféns da nossa própria liberdade. À semelhança de um ator/encenador que a dado momento se perde ou se funde – ou se metamorfoseia – ficando preso na própria personagem que criou. Desconectado do seu verdadeiro eu.

Se, de outra forma, tivermos uma atitude mais reflexiva e nos colocarmos em perspetiva, num exercício de autocontemplação e de auto-observação – de espectador de nós mesmos – dos nossos próprios processos internos e perante o exterior, apenas observando curiosamente quem é esta pessoa que veste aquela máscara, quem é este ser que desempenha tal papel, quem é aquele que está a ter determinados pensamentos… Conseguirmos observar que pensamentos e opiniões são processos transitórios, que nos atravessam a mente, mas não são a nossa mente.

Conseguimos observar que até os próprios valores, segundo os quais nos pautamos, se vão reorganizando em diferentes prioridades, a cada fase da nossa história de vida, cuja narrativa se altera.

Tudo se transmuta e talvez amanhã a forma de ver o mundo já será diferente da de hoje. E é extraordinário podermos viver determinado personagem em determinado momento, e depois ser outro diferente, sem ficarmos presos a nenhum deles. Entender que a Persona, assim como o Ego, é um veículo que nos facilita na interação com o mundo.

Somos o ator por trás da máscara e não a máscara em si. E por detrás dessa máscara, de todas as máscaras, talvez a partir do exercício de observação de nós mesmos, nós consigamos entrar no silêncio. Um silêncio interno. E silenciar tudo aquilo que o Self não é. E é quando silenciamos tudo aquilo que o Self não é, que nos conectamos com a nossa essência.

E isto traz-nos liberdade em relação à persona. Não se trata de abdicar dela. Mas sim de saber quem somos em essência; ou, ao menos, tentar buscar a conexão com a nossa essência, por detrás de todo o ruído, de todas as condições, de todas as personas.

E quanto mais profundamente nos conhecermos, melhor a nossa persona expressa, comunica e representa quem nós somos.

E quanto mais profundamente nos conhecemos, mais livres seremos para representar diferentes papéis, sem nos desconectarmos do nosso verdadeiro eu.

Vânia Cardoso

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