6 de Maio de 1856 – Nascia Freud, no império Austro-Húngaro.
Judeu, médico neurologista, discípulo de fisiologistas como Fechner, e pai da Psicanálise, é, aceitem ou não, figura incontornável na Psicologia.
No séc. XVI Galileu descobre que a Terra não é o centro do mundo, propondo a alteração de uma perspetiva paradigmática antropocêntrica para heliocêntrica. (Foi por isso torturado, até que desmentisse a sua hipótese).
No séc. XIX, Darwin, com as suas longas tours pelo planeta, vem trazer um entendimento, uma teoria sobre a evolução das espécies. E foi outra “ferida aberta” no antropocentrismo, esta abordagem evolucionária e Darwiniana, que dá enfoque à biologia e sua interação com o ambiente, em lugar de uma perspetiva criacionista da origem humana e dos seres. O nosso corpo não surge do nada, descende de uma linhagem de ancestrais que incluem o primata humano, resulta de milénios e milénios de evolução. Os seres têm respostas comportamentais filogenéticas, biológicas e com função adaptativa, respeitando o imperativo biológico de garantir a sobrevivência da espécie.
E eis que, num terceiro momento, no início do século XX, com Freud, surge na comunidade científica uma mudança-chave, revolucionária, na leitura do Homem.
Ainda que Freud trabalhasse à margem das cátedras e das universidades, sim, o autor e a Sociedade Psicanalítica de Viena – inicialmente chamada de Sociedade Psicológica de quarta-feira – influenciaram todo o paradigma científico à época, dando suporte a uma transição de um paradigma reducionista e positivista para um paradigma da relatividade e da subjetividade (como estava acontecer na física e em outras áreas do saber), onde nada se exclui, nem tabus – tabus do interdito, da opressão, da repressão, da sexualidade – nem aquilo que está à margem da ciência por ainda não ter sido “provado”.
Porque ciência não é provar, ciência é duvidar. É trazer à discussão. É não rejeitar. É não ser dogmático.
(O caminho que a psicanálise terá levado, também dogmático, talvez… Isso é outra história. E é-nos evidente. Ainda que pouco importe para o ponto que aqui queremos enfatizar: o de que a sua função epistemológica, de quebrar o gelo dos tabus espartilhados numa sociedade hipócrita, iluminista e vitoriana, foi cumprida.)
Voltando a Freud, quando convidado para um congresso nos EUA, onde à época os investigadores das ciências psicológicas eram comportamentalistas debruçados em torno do “objetivamente observável”, Freud terá dito “Mal eles sabem que lhes levo a peste.”
A manifestação e a organização dos sintomas, a origem da dor e do trauma, a psique humana que herda determinada carga social, e sua interação com a fisiologia que decorre no corpo, não são lineares.
Um século depois de Freud, a forma da sociedade adoecer é já diferente. Em todo o caso, é necessário honrar e lembrar aqueles que nos abriram caminho. Incompreendido por muitos, genial para outros tantos, hoje recordamos Sigmund Freud.
Pessoalmente, durante algum tempo, entendi que seria de lamentar a separação entre Carl Jung e Sigmund Freud, ambos fundadores da Sociedade Psicanalítica de Viena. Jung assumidamente espiritual, estudioso do inconsciente coletivo, da função estruturante que a mitologia assume nos povos, da simbologia dos arquétipos. Por outro lado, Freud neurologista de olhar clínico quebrando o reducionismo vigente, igualmente conhecedor da mitologia e da história da humanidade; mas deixando-se enredar ainda um pouco, quer na própria necessidade de cientificação das suas propostas, quer no próprio dogmatismo para onde atirou a sua obra, impedindo-a de ser sujeita a refutabilidade, impedindo-a, enfim, de ser ciência.
Atualmente aceito e entendo perfeitamente esta necessidade de separação entre os dois autores, pois há caminhos que não se fazem juntos, fazem-se separados.
Também pessoalmente entendo e reconheço como sendo enriquecedor, que é possível olhar a história dos conceitos, dos autores, das obras, das divergências, dos diferentes movimentos, enfim, olhar a história do conhecimento, e encontrar pontos de acordo, e conseguir integrar os diversos saberes.
Na fotografia retirada do arquivo do Freud Museum London, estão Freud e Anna Freud, no ano de 1920, no Congresso Psicanalítico em Haia, na Holanda. Anna Freud, sexta e última filha de Freud, fez grandes contributos para a Psicologia, nomeadamente ao dar ênfase à instância do ego, (até então o foco dos autores era no inconsciente e nas demandas do Super Ego). Entre outros contributos, Anna Freud fez um estudo notável e aprofundado dos processos defensivos que protegem o ego, mais concretamente designados em Psicanálise de mecanismos de defesa inconscientes do Ego. Atualmente quaisquer abordagens clínicas e modelos terapêuticos reconhecem a existência e a importância destes processos, ainda que lhes possam dar outro nome.
Vânia Cardoso

