Partindo de Brecht – reflexões íntimas

Bertold Brecht.

Foi ao assistir a uma brilhante adaptação da peça O Círculo de Giz Caucasiano, há mais de 15 anos atrás, com estreia no Museu dos Transportes, em Coimbra, pelo Teatrão, que tomei contacto com este dramaturgo.
Instantaneamente fiquei rendida, e o seu legado diz-me muito. Hoje, 14 de Agosto, é o 66o aniversário da partida de Bertolt Brecht, dramaturgo, encenador e poeta do século XX, tantas vezes citado para abrir discussões de relevo, nas disciplinas de ciências sociais, psicológicas e afins.
Ao seu trabalho, subjaz a sagacidade de um pensamento crítico, que influenciou radicalmente o paradigma artístico e social à época vigente, até à contemporaneidade; debruçando-se num mergulho profundo sobre a crítica do estabelecimento e desenvolvimento das relações humanas. O autor problematiza conceitos como ordem, poder e justiça na sociedade.
Parto desta data e deste autor, em tom de homenagem, e sobretudo fazendo um link para a atualidade, como ponto de partida para uma reflexão mais intimista, que tem vindo a eclodir nos últimos tempos, à medida que me detenho, reflexiva, perante o meu trabalho, e perante o meu próprio processo de desenvolvimento pessoal.

Dos territórios, dos campos, das margens, das fronteiras e dos limites.

Do património afectivo de cada um de nós.

Do saber fazer um exercício: o da empatia; o de colocar-se no lugar do outro; o de ver de um outro prisma; o de saber olhar para dentro de si, também.

É sobre redefinir limites, fronteiras, margens, campos, territórios.

É sobre ressignificar o nosso património afectivo. Herdado. Adquirido. Vivenciado.
Que tantas vezes atua à margem da nossa consciência.

Importa então olharmos para dentro de nós mesmos.

Importa então olharmos para as nossas relações.

NÃO para perpetuarmos uma dor, um papel, uma função, uma persona, um determinado perfil ou um determinado padrão.

SIM, para nos aproximarmos mais daquilo que realmente é a nossa essência.
Para que surjam as mudanças que querem e necessitam brotar e acontecer dentro de nós.

Para podermos olhar de novo “os espaços em volta” sem o crivo de um ego cheio de feridas, cheio de dor e de gatilhos de activação emocional.

Mais importante do que “novas terras”, são “novos olhos”, um novo olhar. Mais empático. Mais límpido. E mais consciente daquilo que é seu, que é nosso, de cada um, e do que não é.

Com mais clareza do que se quer levar no caminho e do que se quer deixar dissolver.

Com limites mais definidos.
Com espaço para se ser ora mais firme, ora mais flexível, conforme as circunstâncias e as demandas internas. E sobretudo, com espaço para o amor-próprio.

É sobre um processo de libertação, também.

É sobre profundas transformações internas.
Que irão beneficiar as nossas relações com os outros – Um “território” alargado, portanto. Talvez bem maior e com mais alcance, no espaço e no tempo, do que alguma vez pudéssemos imaginar.

“Do rio que tudo arrasta se diz que é violento. Mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem.” – Foi concretamente desta ideia de Brecht, como mote, que parti para a reflexão exposta, deixando simultaneamente várias propostas: A de acessarmos o que ainda não foi visto, sentido, mentalizado. A de olharmos, conscientes, contemplativos, em amplidão, em profundidade, para dentro de nós, e à nossa volta, segundo diversas perspetivas. A de sermos guardiões de laços, de pontes, de conhecimento. Guardiões do saber. Guardiões do que vale a pena herdar e transmitir. Guardiões do poder da transformação. Guardiões – e geradores – de compreensão e de amor.

Vânia Cardoso

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