No rescaldo do Dia de Reis: Renascer para um Novo Ciclo

A Simbologia do Natal na Dimensão Psicanalítica

Sou apaixonada por símbolos e arquétipos. Antropologia Cultural e Mitologia. Psicoterapias Sistémico-Dinâmicas. 

Numa mensagem telefónica recente que recebi de uma amiga, dizia-me que o Natal cada vez mais lhe faz menos sentido. Dizia-me ela que “(…) o Natal é das crianças.”

Mas… E se o Natal for, precisamente, para os adultos?

Deixo-me seduzir por disciplinas como semiótica e semiologia. E, a neurofisiologia contemporânea, pela qual tento pautar diariamente o meu trabalho, em nada é contrária à programação e reprogramação neurolinguística. À Esperança, portanto.

A pulsão de vida (conceito clássico freudiano), posso entendê-la como estando presente, até, no pinheiro do Ártico, que se mantém firme, verde e vivo, erguido contrário à gravidade, debaixo de neve gelada, apesar das condições inóspitas invernais a que é acometido – Guiando o cavaleiro da Dinamarca, até ao seu lar (aproveito para deixar aqui uma referência ao conto infantil de Sophia de Mello Breyner, em jeito de singela homenagem à autora).

Na compreensão do pathos (doença/sofrimento) sobre um indivíduo, em psicoterapia, trabalha-se muito com símbolos e representações que os mesmos encerram – manifestando, cada pessoa, determinados sinais e sintomas.

Na terapia clássica, os símbolos ajudam o psicoterapeuta na orientação para a descoberta da etiologia e causas dos sintomas, que muitas vezes remetem para traumas emocionais infantis não solucionados.

O que representa, então, o Mito de Natal?

Em primeiro lugar, é como se a essência, ou a divindade, se materializasse no ser humano – com o nascimento do menino Jesus.

No espaço terapêutico intersubjectivo é comum remetemo-nos ao “mundo do adulto” e ao “mundo da criança”, ou mundo infantil, lúdico; do imaginário; do sonho; da esperança; que implica a função simbólica. – Tantas vezes subestimada, e subtraída à infância das próprias crianças, e dos adultos, que outrora foram também crianças.

Entre os povos e nas diversas culturas, Natal é uma oportunidade de resgatar algo que diz respeito à nossa natureza mais interna e mais profunda – a essência. E nada tem a ver com religião. Não necessariamente. A proposta aqui é, tão somente, analisar a desconstrução dos arquétipos e dos simbolismos.

A importância de olhar para o “menino”, que é um ser novo, que representa todas as novas probabilidades, todo um novo potencial, passa por cada um de nós se reconhecer naquela criança e reconhecer em si, ainda que inconscientemente, a existência da sua própria essência. Que é sempre divina. Pois um menino que nasce, representa a Vida. A minha, a sua, a nossa criança… Cada criança interior é detentora dessa essência de Vida.

Quando olhamos “o menino”, projetamo-nos nele. Vemos, de dentro de nós mesmos, a partir dos nossos olhos, para dentro dos olhos dele, o nosso próprio olhar, mergulhando na nossa própria essência; de menino, ou de menina. Portanto, o Natal – de Natalidade – é uma oportunidade de reconexão com a Vida. Com algo maior. Com o que há de mais puro.

Tal como, a dada altura, no processo terapêutico nos detemos a aprender a ouvir, a acolher, a cuidar e a amar a nossa criança interior, é interessante que também o Natal – momento de reflexão, de final de um ciclo, de despertar para a Vida, traga a criança – que representa essa essência divina da Natureza – e que está lá, algures, necessitando do nosso investimento, do nosso amor.

Do nosso olhar.

Do nosso próprio cuidado.

Do nosso acolhimento.

Quando nos deparamos com uma simbologia como esta, é como se qualquer um de nós, cada um de nós, fosse também esse “menino”; fruto de algo maior. Vida. Ou outro nome que qualquer um queira dar.

E se todos nós somos fruto desse lugar, significa que todos nós, fazemos parte e somos parte pertencente de um sistema: A Humanidade.

Somos cada um, um todo, um micro-universo único. E simultaneamente somos, cada um, parte do mesmo macrossistema, infinito, dinâmico e fluido, o universo.

(Inclusivamente, somos, por conseguinte, todos iguais. E todos diferentes, porque cada um é único. Nenhum outro ser ocupa o lugar que cada um de nós preenche, em determinado espaço-tempo. – Aproveito para relembrar o importante Princípio da Equidade Social.)

Retomando a questão primeira, a quadra Natalícia é um convite aos adultos – tantas vezes desconectados da sua infância, do seu mundo emocional, lugar privilegiado dos afectos – a atender à sua criança interior, reconhecendo-a e aceitando-a. Acolhendo essas partes, tantas vezes esquecidas ou negligenciadas, do mundo afetivo – num movimento complexo – tornando-se mais fácil seguir com a vida, com uma maior integração do Self. Recalculando, sempre que for necessário, o nosso GPS para destinos, e por caminhos, mais saudáveis.

Voltando ao mito, é a voz de um anjo que anuncia “o menino”; através de uma mensagem divina, torna-se humano, na terra. Num ventre, onde céu e terra se encontram. Trazendo a junção de duas forças, de direções opostas. Mas não competitivas, antes complementares, que se conjugam e se interpenetram. Como se fosse uma fecundação. Simbolicamente, a criação.

Surgem, também, nesta semiologia, Maria e José.

Que, na verdade, não são os donos desta criança. Maria e José, passam a ser figuras centrais para ajudar o menino a crescer, e posteriormente deixá-lo seguir com a sua missão, com a sua vida. O casal terá uma função, de imagos parentais. Mas, o menino Jesus, não é nem do pai, nem da mãe. É um ser da Vida. Que passa por este pai e por esta mãe, cuja função é protegê-lo e educá-lo da melhor forma que forem capazes, enquanto criança. Então, um filho passa pelos pais para, após o desenvolvimento e após um novo ciclo vital, ir em direção à sua própria vida. Assim é na estória, assim é no mito.

[Num comentário paralelo: vale lembrar que os pais são os responsáveis pelas crianças, mas os filhos não são propriedades que lhes pertençam. Filhos não são prolongamentos narcísicos dos pais. Filhos não são partes moldáveis dos pais. Filhos não são apêndices secundários, ou simples partes de relações conjugais. Filhos não são danos secundários ou colaterais de uma qualquer conjugalidade, mais ou menos disfuncional.

Filhos são seres únicos. Dotados de um potencial também único. Onde as possibilidades da vida de cada ser podem ser infinitas.

Pais e mãe não hão-de, assim, entender que um filho “é meu”, que um filho “vai existir para mim”, “para eu moldar à minha semelhança”, “que veio para nós”, “porque nós pais somos soberanos”, “o filho é meu, faço o que eu quiser.” Tantas vezes se ouvem estas e outras afirmações. Sem saber, regidos por crenças egóicas, os pais, com o seu domínio poderoso sobre a vida de um filho, podem também, suprimir a essência da criança, limitando a sua expansão desenvolvimental.

Abro um parêntesis para o dizer de outra forma, poética e branda, pelas palavras de Khalil Gibran (filósofo oriental do séc.XIX):

(“Teus filhos não são teus filhos

São filhos e filhas da vida, anelando por si própria.

Vêm através de ti, mas não de ti 

E embora estejam contigo, a ti não pertencem.

Podes dar-lhes amor mas não os teus pensamentos

Pois que eles têm os seus próprios pensamentos

Podes abrigar seus corpos, mas não suas almas 

Pois que suas almas residem na casa do amanhã, 

Que não podes visitar sequer em sonhos.

Podes esforçar-te por te parecer com eles, mas não procureis fazei-los semelhantes a ti, 

Pois a vida não recua, não se retarda no ontem.

Tú és o arco do qual teus filhos, como flechas vivas, são disparados… 

Que a tua inclinação na mão do Arqueiro seja para felicidade.”)]

Prosseguindo com a questão proposta: Eis que nasce então “o menino”, e nós continuamos a ouvir a estória, como mito.

Os Reis Magos, orientados pela estrela-guia, vão reverenciá-lo, pois que seria o novo rei  – Não o rei do poder, mas de outra dimensão (acrescentando, talvez, um caráter psicológico e mais humanizante à história.) À época, Herodes, rei da Judeia e representante do Império romano, sentindo-se ameaçado por ouvir dizer que viria um messias, decide mandar matar todos os bebés do sexo masculino até aos 2 anos de idade, no intuito de destruir a criança. Trata-se aqui de uma dinâmica de Poder. Aniquilar o Ser que pode ameaçar o Poder – Eis representada no mito, a morte da criança, ou melhor, a morte da infância, a recusa perante a simples presença de algo novo e puro entre os próprios Homens. Está pois configurada, a partir da conduta de Herodes, essa não aceitação – pois a própria essência de Vida pode ser uma ameaça às dinâmicas de poder, a vários níveis.

Este mito de Natal assume uma leitura universal e referente aos homens. Acontece nas famílias, muitas vezes. Quando recebem mal a notícia de uma criança que virá, em breve, ao mundo. 

E acontece, até, na nossa esfera individual. A sós connosco, no nosso Ego – em conflitualidade interna. Será que Herodes pode também representar este Ego,- este rei, esta rainha – esta estreita consciência que entende tudo controlar, tudo saber, que julga poder reger tudo em si e em seu redor? Será que este nosso rei-Ego, acolhe essa criança, essa dimensão emocional mais pura – a essência divina? Ou será que este rei-Ego manda matar toda a infância, na tentativa de continuar a julgar-se detentor e controlador do poder? 

Acontece, ou aconteceu já, com todos nós, adultos, sem excepção.

Os Reis Magos, guiados na noite cerrada pela estrela-guia, ao chegar até ele, oferecem-lhe ouro e ungidos preciosos: incenso e mirra. Para este menino, a par da Humildade, da Protecção e do Cuidado, um outro valioso recurso: A Prosperidade. Lembrando aos leitores da estória sobre o mito, de que a fortuna está na essência, na aprendizagem, no crescimento, no desenvolvimento permanente. Riqueza é estar em conexão com a Vida. Eis pois, reconhecido pelos Reis Magos, que a grande riqueza é interior. Interna. E que eles, sábios magos, apenas ampliam essa riqueza, visitando, brindando e reverenciando “o menino”. – Aqui sublinhamos outras leituras interessantes contidas nesta simbologia. O menino não nasce na riqueza. Nasce, simplesmente, de seres humanos comuns. Deitado sobre palhinhas. NÃO se trata de pobreza. Mas sim de Simplicidade, Dedicação e Necessidade de Proteção.

Neste seguimento, no aspecto psicológico, o que importa encontrar numa mãe e num pai, é que sejam uma mulher e um homem comuns.

Sem assustar, sem serem castradores ou fantasmáticos. Sem serem inatingíveis. Distantes ou frios. Ou abandónicos.

Apenas, serem um pai e uma mãe, comuns. Que tantas vezes são injustamente julgados, que reconhecem não saber tudo, que erram, que nem sempre estão preparados para a parentalidade, que vão aprendendo à medida que os dias correm e que os obstáculos se apresentam, dando o melhor que sabem e podem. Seres humanos comuns – função que é extremamente morosa e complexa. Mas simplesmente cumprindo esse papel de ser mãe e de ser pai, como Maria e José fizeram. Entender que aquele ser que deles nasce, é um ser de luz que deve ser protegido.

Neste contexto, na conferência Natal no Divã, em Coimbra, 2004 – conferência, a meu ver inesquecível – Amaral Dias refere que Cristo, em menino, é salvo por José, “que, convém não esquecer”, dizia o psicanalista, “não era só um carpinteiro; era descendente direto da família de Abraão. Convém explicitar que quando Cristo foi falar com os doutores da igreja e sabia tudo, isto é algo que os judeus praticam há mais de 5000 anos. Faz parte da cultura hebraica; qualquer filho varão de uma família judia devia saber ler, escrever e contar. Era a razão do sucesso do povo judeu. Tal como Cristo, os miúdos tinham que saber ler, escrever e contar. Imaginem isto num mundo bárbaro e analfabeto há 5000 mil anos atrás! Hoje, aprender a ler, escrever e contar é conhecer a história do mundo, cruzar realidades, perceber a vida tal como ela é. (…) Pegar numa criança e ensiná-la a pensar. 

Preparar uma criança para a vida, portanto. Que, mais tarde, a caminho da vida adulta, seguirá a sua própria missão de vida. 

Porque a fortuna está sobretudo dentro de nós e na função de quem nos vê realmente, de quem nos investe. Um pai que protege e ensina, uma mãe que ama. Mestres sábios glorificando uma criança que nasce. E, anos depois, idealmente, cada adulto se tornaria progressivamente capaz de cuidar da sua própria criança interior. – Independentemente das condições mais ou menos favoráveis em que tenha nascido.

O Valor Maior de cada um, é o que está dentro de si, a sua capacidade de se sentir próspero, de conquistar. De se preencher. E nada melhor do que se preencher da sua própria criança interior, sanando-lhe as feridas. O amor também faz parte do leque de competências humanas. Competência essa que por vezes demoramos muito tempo a aprender. Sobretudo o amor-próprio. Mas valem a pena TODAS as vivências e experiências que permitem essa aprendizagem. No fim das contas, nós olhamos para o mundo de uma certa maneira, porque somos capazes de olhar para nós de forma profunda. 

O Natal encerra uma semiologia em que cada pode encontrar disponibilidade para se amar um pouco mais, a cada vez que um novo ano , um novo ciclo, chega. É algo que acontece dentro de nós.

Todas as crianças nascem inocentes e puras e estão abertas à conexão.

Dentro de nós, adultos, por vezes, há partes em conflito. É importante torná-las comunicantes e integrá-las. Esse é o trabalho terapêutico, a longo prazo. Dentro de cada ser humano há dinâmicas destrutivas que conflituam entre si, e dinâmicas de integração. Cada um tem os seus desafios. Cada um tem os seus tesouros, os seus recursos, também. Para conseguirmos olhar em direção ao futuro.

No que respeita à importância do tema Natalidade, e prosseguindo nesta dimensão psicológica clássica – A primeira experiência do bebé fora do útero, é quando inspira pela primeira vez. É a primeira interação com algo maior fora do útero materno. A atmosfera. Inspirando vida. Conectando-se com a respiração. Respiração essa que é protetora e vital, note-se, permanecendo a decorrer ininterruptamente, mesmo quando dormimos, mesmo à margem da nossa vontade e consciência, desde o nascimento até ao fim dos nossos dias. 

Uma nota curiosa e muito acarinhada pelas abordagens psicanalíticas é que Psychē (vocábulo que dá origem, por prefixação, a psique, psíquico, Psicologia, Psicoterapia, Psicanálise, etc.) vem do grego – e quer dizer algo como respiração, respirar, sopro. – Psychē. Respirar, após a inspiração inaugural do nascimento. O nascimento de uma criança é também uma abertura, uma inauguração do seu mundo psíquico – que se vai arquitetando na interação com o mundo, e nas relações que estabelece.

Cada bebé que nasce de um útero materno, onde tinha as condições físicas ideais para se sentir envolvido e seguro, uma vez no mundo, necessita ser abraçado, envolvido, sentir contacto humano, sentir os cheiros, ouvir as voz de quem o cuida, sentir o batimento cardíaco da mãe, ou de outro adulto, agora fora do corpo da mãe. Entre muitas outras necessidades basilares. Por isso – outra nota curiosa, em Pediatria: os profissionais de saúde, carinhosamente, ao primeiro trimestre do recém-nascido, chamam de quarto trimestre de gestação, ou período de exo-gestação.

No futuro, esse ser irá conseguir alimentar-se sem necessidade da mãe. Nutrir-se de outras fontes de energia, sem ser através do peito da mãe. – Pretendo dar aqui um enfoque a este crescendo gradativo, notando-se um corte, uma cisão incremental relativamente às necessidades das figuras parentais, com quem está vinculado e seguro. E de forma progressivamente autónoma segue em direção à sua independência. À sua própria vida.

Fazendo um paralelismo com o Mito de Natal, tal como o menino Jesus, se desapegou do subtil/celestial e se fez humano, também cada um de nós, se desapega do útero da sua mãe, para nascer. Após nascer, a criança vai-se desapegando do alimento materno, do colo da mãe; depois, do lar da família de origem. Tudo isto faz parte do ciclo de vida. Para construir o seu próprio lar, a sua própria família nuclear. E, a cada desapego, é como renascer para um mundo diferente. Uma nova etapa de vida. Um novo ciclo.

Insistindo no paralelismo, o Natal representa um renascimento. Nascer para um ciclo maior, para um próximo ciclo de vida, um ciclo diferente, desconhecido, novo. É também saber despojar-se do ano anterior; para se abrir ao novo ano que vem.

Para retornarmos ao ponto inicial de onde partimos no início deste texto, e após esta desconstrução arquetípica, na semiótica no Natal, existe, ainda, a Esperança

Esperança, simbolizada pela estrela-guia, é um brilho que surge numa noite densa e cerrada, na escuridão do caminho desconhecido.

Não é por acaso que a natureza nos oferece a todos, desde pequenos, uma oportunidade de ultrapassarmos os nossos maiores medos, e quando eles mais surgem: a noite.

Não é por acaso que os contos infantis estão repletos de passagens onde há caminhos que têm que ser percorridos de noite.

É necessário, desde pequenos e durante a idade adulta, aprender também a atravessar o medo, confiar e ter esperança: mesmo durante a noite.

Um ponto de luz que orienta os viajantes.

Um ponto de luz que orientava os navegadores.

A estrela que guiou os Reis Magos – os próprios mestres sábios, orientaram-se pela estrela-guia na noite escura e cerrada – buscando através dela, um ponto de luz, o caminho para encontrar e reverenciar o verdadeiro rei. O tal “menino”. A mais pura essência.

Também nos momentos mais difíceis da nossa vida, mais densos, onde nos deparamos completamente perdidos e mergulhados em profunda escuridão, onde por vezes parece que tudo se desmoronou… Quem sabe possa surgir uma estrela-guia. Se a avistarmos, se a seguirmos, de repente encontramos uma luz que nos orienta na caminhada. Como diria Fernando Freitas, médico e terapeuta contemporâneo, criador da abordagem Consciência Sistêmica, “quando tudo se apaga, a essência surge.”

O Natal propõe aos adultos o resgate dessa criança, dessa riqueza encerrada dentro de nós, o que temos de mais profundo, a nossa essência, inviolável, a nossa alma. “A Alma que pode partir, daqueles que podem ousar. A alma da esperança e do futuro.” E continua, recorrendo a um conceito de outro psicanalista, Coimbra de Matos, “(…) aquilo que traduz o Narcisismo de Vida da espécie humana, para podermos crescer e renascer.” – dizia Amaral Dias, na conferência já anteriormente referida, Natal no Divã, em Coimbra, 2004.

A criança que cada um de nós foi, quando éramos pequenos, talvez tenha vivenciado momentos difíceis, episódios traumáticos, eventos adversos. Talvez lá fora, mesmo já em adultos, o mundo ainda nos pareça, por vezes, esmagador. 

É necessária uma dinâmica madura de proteção. É importante colocar essa criança que fomos, essa essência, bem protegida, segura, dentro de nós. É dentro de nós que está o nosso berço. Uma boa asserção para o novo ano, e para os anos futuros, parece-me, é a de que podemos, com responsabilidade e maturidade, aprender a ouvir, respeitar, acolher e resgatar a nossa própria essência. Se aprendermos a amar a nossa criança interior, tantas vezes ferida, só, não vista, incompreendida, podemos aprender a amar quem nós quisermos. Se eu souber amar a mim mesmo(a), saberei amar a outro. Voltando a Fernando Freitas, parafraseando o terapeuta, a partir do momento em que eu amo a minha essência de vida, eu sou capaz de valorizar, respeitar e ver efetivamente a essência do(s) outro(s).

Reverenciando a nossa criança interior, seremos melhores, no nosso mundo interno e no universo. Porque melhor saberei traduzir, expressar, comunicar, materializar, expor, o que existe dentro de mim. Fazendo expandir o respeito, a responsabilidade e o amor, entre outros valores, ao longo da vida, neste lugar chamado mundo.

O presente dos Reis Magos é, portanto, o reconhecimento do valor incondicional de uma criança. 

Dentro de nós fica um desvelo, algo que nos preenche, herdado das oferendas – das riquezas – que as nossas referências significativas – sejam pais, professores, familiares, amigos, mestres – nos deixam. E as nossas próprias vivências, aprendizagens e descobertas. O nosso próprio amor, por nós e em nós gerado.

Se olharmos bem profundamente para tudo o que temos cá dentro (lembrando o título do livro de Daniel Sampaio, psiquiatra contemporâneo) – Para aquilo que não queremos ver, e para aquilo que nos faz sentir valiosos, descobriremos muitas partes desintegradas, que poderemos integrar e tornar comunicantes. Também descobriremos dentro de nós uma parte sábia. Adulta e madura, à semelhança de um Rei Mago. Que é capaz de se reverenciar a si mesmo(a). E a outro.

Pessoas que se não amam, são pessoas abandonadas, por si mesmas. Se não houver disponibilidade para o amor-próprio, a frustração e os conflitos internos auto-destrutivos, materializar-se-ão nas nossas relações. O mundo exterior irá refletir o mundo interior. A solução para os conflitos internos está dentro de nós. Na nossa essência. E na forma como decidimos gerir as nossas relações. A partir do momento que transformamos o nosso mundo afetivo, entramos em contacto connosco mesmos, arquitetando nós os nossos laços e vínculos. Cada trauma, cada provação, cada contexto adverso, faz parte do caminho do humano, na jornada da descoberta da esperança. Da tal estrela-guia.

Mesmo que os nossos pais biológicos estejam longe de ser os que gostaríamos que tivessem sido, também vale que nós, adultos, consigamos um dia entender que os nossos pais biológicos têm direito a margem para erro, que são, ou foram, pessoas, além de pais, com direito a margem, da nossa parte, para compreensão. Para que a nossa vida não permaneça ad eternum hipotecada a dinâmicas e a padrões relacionais disfuncionais e transgeracionais. Respeitar a nós e aos nossos, é também saber distinguir que património afetivo e relacional queremos herdar e manter, ou deixar que se desfaça.

O Self maduro e integrado é como ter uma mãe e um pai, e uma criança;  É ter vários “cidadãos significativos do nosso mundo interior” (recuperando uma expressão que me é muito cara, do professor e psicoterapeuta Eduardo Sá), todos fazendo parte de uma mesma viagem, todos passageiros dentro do mesmo autocarro. Onde só um, que ouve e atende todas as outras partes, pode mexer no GPS e fazer recalcular, quantas vezes forem necessárias, até encontrar o caminho pretendido: O protagonista adulto da sua própria vida, que se cuida, se respeita, responsavelmente e calorosamente. Tomando decisões de qualidade.

Entradas em Novos Ciclos são Momentos:

para olharmos para dentro de nós;

para nos conectarmos connosco;

para percebermos se a nossa criança, hoje, consegue ser ouvida por nós;

para gerar harmonia dentro de de nós;

de resgatar a conexão com a nossa essência;

de introspecção;

de solitude, se necessário;

de saber desapegar-se;

de integração;

do Ser;

de Renascer.

Numa mudança para um novo ciclo, a caminho do futuro, há uma grande oportunidade para olharmos para dentro de nós e para as nossas relações próximas; para o nosso propósito de vida, para o nosso alinhamento com os nossos valores. O que entendermos de facto saudável, contemplamos, internalizamos, e expandimos ainda mais, para fortalecer esses recursos em nós. O que entendermos como disfuncional, olhamos também, acolhemos, para podermos dissolver essas questões densas. Dentro de nós há e haverá sempre luz e sombra (como sugeria Carl Jung). Mas só transformamos aquilo que colocamos na equação, que incluímos num sistema. Se não olharmos, se excluirmos, não há possibilidade de transformar e de aprender a fazer diferente e melhor.

Por falar em luz e sombra, o caminho do auto-desenvolvimento é simultaneamente o caminho e a meta, onde mais importante do que chegar, é caminhar sempre. A vida é feita de altos e baixos, e as aprendizagens também. Só experienciando, vamos vivenciando e aprendendo na vida. Cada um dos obstáculos pelos quais passamos, são como degraus, para crescermos, após grandes desafios. Tornando-se mais clara, dia após dia, a forma de como queremos prosseguir e crescer. Crescendo sempre, até à nossa última respiração.

E na conferência Natal no Divã, anteriormente referida, relativamente ao sucesso do mito do Natal em todo o mundo, mesmo em povos não-cristãos, Amaral Dias terminou dizendo assim: “Porque é que em países tão diversos, tão diferentes, muitos ateus… Qual o segredo do Natal?(…) Sabem qual é o segredo do Natal?(…) O sucesso do segredo do Natal em todo o mundo (desde Cabo Verde, à Coreia, no Japão, etc.), é que todos nós, mas mesmo todos nós, gostaríamos de ter nascido daquela maneira.(…) Todos nós, mas mesmo todos nós, teríamos a aspiração suprema, narcísica, de narcisismo de vida (…), de que o nosso nascimento fosse um momento em que nos glorificarmos. Glória! Porque nasceu mais um ser humano.(…) A cada criança que nasce, é a humanidade que continua.

O segredo do Natal é nós investirmos a esperança de que a nossa criança interior possa ser olhada e resgatada, parafraseando Amaral Dias, com esta convicção profunda, básica e simples de que somos os seres mais importantes do mundo.

E termino esta longa reflexão, arriscando dizer que o Natal é sim, para os adultos. Cada adulto tem um “menino” Jesus dentro de si.

Que saibamos fazer um encontro dentro de nós, abrindo espaço à vulnerabilidade, a todas as nossas partes não ouvidas, não atendidas até então. Quem sabe, poder-se-ão dissolver tantas dores, tantos complexos traumáticos, e tantos bloqueios. A vida pode ser um lugar bem melhor, se procurarmos dentro de nós um lugar seguro – talvez à semelhança de uma cabana como em Belém, onde nada nem ninguém possa ter o poder de perturbar a nossa paz.

E que o grande presente seja o amor que brota dentro de nós. Nas palavras de Fernando Freitas, “Nenhum de nós pode salvar o mundo.” Nem deve cair na armadilha de ter essa pretensão. – “Mas cada um de nós pode ser elemento fundamental para um mundo melhor.

Vânia Cardoso

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