13 de janeiro de 2023 – Dia Mundial de Prevenção e Combate à Depressão

Coloco o meu rosto, porque a depressão não tem rosto. O rosto da depressão é um enigma. Ninguém quer ter o rosto da depressão. Nem há um rosto-tipo. Pode ser qualquer um de nós. Os estudos científicos nesta área indicam que mais de metade da população adulta passou por pelo menos um episódio depressivo.
Distinta da tristeza, que é uma emoção humana válida como qualquer outra e tem a sua função, a depressão é uma doença.
Em Psiquiatria a depressão é considerada uma Perturbação do Humor, transitória. (Que, se cronificada, pode acrescentar alterações à própria personalidade do indivíduo.)
E não existe Depressão, existem Depressões: em cada caso, têm diferentes especificadores e etiologias. Sejam elas “endógenas” ou “reactivas” a fatores quer precipitantes, ou predisponentes: desencadeadas por disparadores ligados a eventos desenvolvimentais prévios. Mas todas devem ser foco de atenção clínica, da mais leve à mais severa. E todas têm em comum a tríade cognitiva depressogénica: visão negativa do Eu, dos outros/mundo e do futuro. A realidade é distorcida pelos óculos depressogénicos. A nossa conduta, as nossas interações irão refletir esse estado depressivo. Condicionando as nossas relações e o nosso mundo externo. Todas se manifestam de formas diversas, e algumas escondem-se bem. Algumas são somatoformes, outras mascaradas de reactividade extrema, ou por força do evitamento experiencial, desencadeando em paralelo sintomas de ansiedade fóbica. Outras marcadas por focos dissociativos: não é ao acaso que um deprimido pode dar uma festa; ou que uma pessoa que na passada semana nos pareceu bem, pode terminar com a própria vida no dia seguinte. É egossintónica (isto é, de acordo com o ego; assumindo ela o comando da nossa vontade e consciência, e por isso tão perigosa), limitante, provocadora de grande sofrimento e de significativo decréscimo na qualidade de vida. O GRANDE FATOR DE MANUTENÇÃO DA DEPRESSÃO – a desejabilidade social, o medo do julgamento, a pressão externa, a vergonha, a necessidade de aprovação exterior, a negação – NUMA SÓ PALAVRA: ESTIGMA. Que está presente nos próprios doentes, na população geral e até nalguns profissionais de saúde. É necessário continuar a lutar pela mudança de mindset no âmbito das questões psiquiátricas. Relembrar que a depressão é uma condição transitória; mas que pode reincidir. Ter 3 episódios depressivos major, aumenta em 70% a probabilidade de ter o 4o. Ou seja, algo que é transitório, pode tornar-se numa condição crónica, se não for alvo de intervenção!
Ela é silenciosa, disfarçada, e insidiosa. Invade o nosso corpo por inteiro. Desde a letargia, à diminuição das funções metabólicas. Frequentemente atira o indivíduo para um permanente estado de alerta, com perturbações do apetite, da libido e do sono. A pessoa dá pela sua mente povoada e fundida com pensamentos automáticos negativos e ruminação; geralmente estão presentes sensações subjetivas de bloqueio, de perda de memória e dificuldades de atenção e concentração, sentimentos subjetivos de incapacidade, de inutilidade, de culpa excessiva e de inadequação. Há uma forte tendência para a baixa autoestima, extrema auto-crítica e isolamento. A depressão interfere em todos os subsistemas do corpo humano: endócrino, imunitário, cardiovascular, sistema nervoso, entre outros. Reflete-se nos seguintes domínios: cognitivo, comportamental, motor, emocional, sensorial, vegetativo e, arrisco-me a dizer, espiritual. A boa notícia é a de que temos também todas estas portas de entrada para a combater.
Não a deixem crescer. Não a deixem instalar-se. Não a deixem ficar.
Lutar contra a depressão, por mais difícil que pareça, não é lutar contra nós. É defender-se da doença, em nosso benefício.
15 dias de sintomatologia depressiva, preenchem critérios para um Episódio Depressivo completo.
Peçam ajuda.

Vânia Cardoso 

Deixe um comentário