A estória da criação desta belíssima canção “Futuros Amantes”, que completa este ano 30 anos, Chico Buarque explica-a numa entrevista:
“A primeira coisa que apareceu foi cidade submersa. Porquê? Isolada de tudo. Depois eu tinha que explicar essa cidade submersa que apareceu antes de qualquer outra coisa. Aí eu coloquei esses escafandristas, e esse amor, adiado, que fica. Para sempre. Uma ideia de amor que existe, assim como algo que pode ser aproveitado mais tarde, quer dizer, e que não se desperdiça. Passa-se o tempo, passam-se milénios, e aquele amor vai ficar até debaixo de água.
E vai ser usado, quem sabe, por outras pessoas…
Porque não foi correspondido, então ele fica ímpar. Pairando ali e esperando que alguém o alcance e complete a sua função; de amor.”
Nenhum amor é em vão. E… Todo o amor é vão. E todo o amor vale a pena.
Todo o amor pode ser liberto e libertador.
Ímpar ou não… O verdadeiro amor é leve, livre, e solto.
“Não se afobe, não
Que nada é p´’ra já
O amor não tem pressa
Ele pode esperar em silêncio
Num fundo de armário
Na posta-restante
Milénios, milénios
No ar…
E quem sabe, então
O Rio será
Alguma cidade submersa.
Os escafandristas virão
Explorar sua casa
Seu quarto, suas coisas
Sua alma, desvãos.
Sábios em vão
Tentarão decifrar
O eco de antigas palavras
Fragmentos de cartas, poemas
Mentiras, retratos
Vestígios de estranha civilização.
Não se afobe, não
Que nada é pra já
Amores serão sempre amáveis
Futuros amantes, quiçá
Se amarão sem saber
Com o amor que eu um dia
Deixei pra você.”

