Dizia William Shakespeare que a realidade supera sempre a ficção.
E na sua vida, sente-se por vezes surpreendido? Sente que encena, conforme os diferentes contextos, vários personagens? Depara-se consigo mesmo a ser um actor vivendo a sua vida, ora secundário, ora protagonista, como se dentro de si houvesse várias e diversas partes (entre elas comunicantes)?
Quais são as suas máscaras? Qual o seu verdadeiro rosto por detrás delas?
E se toda a nossa vida fosse um palco? Uma peça de teatro, em actos seccionados, com mais ou menos interligação entre os mesmos?
E se eu dissesse que também eu, como qualquer outra pessoa, sente fúria, insegurança, medo? E se eu disser que também eu, como tantas outras pessoas, tem pensamentos intrusivos, bizarros, melancólicos?
E se eu disser que nos damos a conhecer não apenas através de uma face, mas de várias facetas. Ou Personas.
Lembrando a Autopsicografia de Fernando Pessoa, “O poeta é um fingidor/ Finge tão completamente / Que chega a fingir que é dor/ A dor que deveras sente./ (…)/ E assim nas calhas de roda/ Gira, a entreter a razão,/ Esse comboio de corda/ Que se chama coração.”
E se eu disser que, como um poeta, também qualquer ser humano, nesse movimento de acessar a(s) dor(es), as feridas, o êxtase, auscultando as várias emoções, tantas vezes e por tanto tempo aprisionadas, que urgem ser sentidas… Isso pode ser tão estruturante para o Self, tão catártico, tão libertador, ou mesmo integrativo e terapêutico?
Jacob Moreno (que viveu nos séculos XIX e XX), debruçou-se à época sobre as ciências psicológicas. Médico e dramaturgo judeu, nascido em Bucareste, passou grande parte da sua vida em Viena de Áustria, e veio mais tarde a naturalizar-se americano. Ele criou o Psicodrama – sendo um pioneiro no estudo e exploração das Terapias de Grupo, precisamente por se ter arriscado ao conciliar os seus conhecimentos enquanto dramaturgo, médico e estudioso de psicanálise. O Psicodrama surgiria então como processo psicoterapêutico cujas origens se acham no Teatro, na Psicologia e na Sociologia. Do ponto de vista técnico, constitui, um processo de ação e da interação entre os participantes. O elemento nuclear é a dramatização. Diferente das psicoterapias puramente verbais, o Psicodrama fazia intervir, manifestamente, o corpo, emocional e visceral, corpo-guardador de memórias inconscientes, e as suas diversas expressões, manifestações e interações com “corpos” e “campos” emocionais de outros participantes. Pode dizer-se que a teoria de Moreno tem como base conceitos filosóficos existenciais, como encontro, espontaneidade, criatividade, aqui-e-agora e teatro; e conceitos teórico-técnicos como momento, teoria dos papéis, role-playing, conservação cultural, entre outros, que somados às técnicas psicodramáticas compunham uma intervenção terapêutica que se propunha não reduzir a psicoterapia ao ato verbal. Evidentemente, importa salientar que estas intervenções em grupo deveriam (e devem) reger-se pela presença orientadora de um facilitador entendido e capaz, para resultados benéficos das interactuações entre os participantes. O modelo disseminou-se e está na origem de intervenções actuais, como aquelas que sustentam a base da intervenção na psicoterapia corporal, por exemplo. Evidentemente outros conhecimentos se agregam e se interpenetram para sustentar a base destas intervenções actuais (tais como conhecimentos ancestrais do budismo e do hinduísmo, e o próprio estudo da neurofisiologia contemporânea, para uma melhor exploração do corpo, enquanto recurso terapêutico de liberação emocional).
Contudo e após uma breve contextualização da origem do Psicodrama e seus legados, e retomando o ponto inicial, este texto pretende tão somente um enfoque incisivo e reflexivo a partir da ideia de que podemos contemplar e entender o modus operandis das interações humanas bebendo da noção de máscaras, desde aquelas que eram usadas nos teatros gregos, na antiguidade. Foi lá que a Psicologia foi buscar a noção de Persona. Antes de encerrar a alusão a modelos e autores, não posso deixar de fazer uma breve referência a um psicanalista contemporâneo de Freud, que se distinguiu de todos os outros: Carl Jung que, importa mencionar, deixou-nos conceitos muito interessantes e complexos como Máscara, Sombra e Self (e que terei gosto de desenvolver, não aqui, mas numa próxima partilha).
Em todo o caso, é sobretudo a partir das ideias de Carl Jung que desenvolvo esta interligação e esta intercomunicação entre as Personas, noção resgatada do teatro, e a sua função essencial de mediação entre o mundo interno a realidade exterior.
Para que (nos) servem as personas?
Persona vem do latim “per sonare”; que significa “soar através de”.
Assim eram as antigas máscaras usadas nos antigos teatros gregos, para interpretar determinados personagens que eram apresentados ao público.
Dentro do contexto da psicologia clássica, as personas seriam as máscaras que o ego usa para se apresentar ao mundo externo, perante o mundo externo. Seriam as partes que me compõem – ao Self – e que o Ego de alguma forma deseja mostrar aos outros. E há outras zonas, outros territórios, outras partes do Self que nós não mostramos a ninguém. O que os outros vêem de nós, relativamente àquilo que partilhamos, exibimos, mostramos, evidenciamos, é o que, em grande parte, desejamos que os outros vejam.
Mostramos múltiplas facetas de nós, que representam algo de nós, mas não nos representam inteiramente, como um todo. O que é figura? E o que é o fundo? E o que somos nós, no fim de tudo? Somos algo para além dessas diversas partes, que se vão revezando no seu destaque.
A Persona funciona, então, como um compromisso entre o indivíduo e a sociedade. Nós assumimos papéis, assumimos determinadas funções em função de certos contextos, e trocamos de papéis em função das circunstâncias. Eu assumo um papel, respondo por um nome, um título, por exemplo, um determinado comportamento, uma posição na família, numa hierarquia empresarial, no contexto profissional, ou perante o meu marido, os meus filhos, os meus pais, os meus clientes. Assumo uma determinada imagem que é criada; e a partir dessa imagem, dialogo com o mundo.
Contudo, a Persona, as Personas não representam aquilo que nós somos. Antes, elas representam aquilo que os outros pensam, e que nós mesmos pensamos, que somos.
Elas não são o nosso verdadeiro eu. Elas são a forma como nos apresentamos ao mundo, como nos posicionamos nele.
E não é inadequado ter-se personas. As personas necessitam existir, são necessárias e úteis, servindo uma função que nos é conveniente. Como é que nós poderíamos comunicar uns com os outros, se as personas simplesmente não existissem?
No entanto, colocam-se duas questões delicadas quando nos referimos à Persona. Uma delas é a super-identificação com a Persona. Ocorre quando nós nos sobre-identificamos com a máscara que usamos; ficando nós presos a ela, fixados nela. Já voltaremos a este ponto.
A outra questão relativa à persona, seria precisamente a atitude diametralmente oposta: a dissolução completa da persona, e a imersão do ego no seu próprio mundo interior sem sequer conseguir dialogar com o mundo externo. Como se houvesse uma desconexão do Self relativamente ao mundo externo, ficando aquele ser operando meramente a partir da sua atitude interior. E nessas situações, essas pessoas podem efetivamente correr o risco de não se conseguir conectar com o mundo, de não conseguir desenvolver iniciativas e projetos, porque aí falharia a persona como facilitador do diálogo com o exterior – que cumpre justamente essa função: a de nos colocar em contacto com os outros, com o mundo exterior. Então a Persona seria como que um mediador entre o Ego e o Mundo Exterior.
Todos vestimos várias personas ao longo da nossa vida, e inclusive ao longo do dia. Tratam-se de diferentes papéis que precisamos exercer perante a sociedade. Nem sempre podemos reger-nos pelo princípio do prazer e simplesmente fazer aquilo de que temos vontade. E é algo incrível nós podermos criar personagens ao longo da nossa vida, olharmos para a nossa história de vida como que dividida em fases, ou em diferentes narrativas, na grande narrativa que é a vida, com diferentes volumes e diversos capítulos. Debruçamo-nos sobre personagens, arquétipos, contextos, situações. Encerramos ciclos. Recomeçamos. Reinventamo-nos. Importa é não esquecer de que nós somos os autores, e não os personagens. Se nos sobre-identificamos com os personagens que criamos, que encenamos, é como que fiquemos reféns da nossa própria liberdade. À semelhança de um ator/encenador que a dado momento se perde ou se funde – ou se metamorfoseia – ficando preso na própria personagem que criou. Desconectado do seu verdadeiro eu.
Se, de outra forma, tivermos uma atitude mais reflexiva e nos colocarmos em perspetiva, num exercício de autocontemplação e de auto-observação – de espectador de nós mesmos – dos nossos próprios processos internos e perante o exterior, apenas observando curiosamente quem é esta pessoa que veste aquela máscara, quem é este ser que desempenha tal papel, quem é aquele que está a ter determinados pensamentos… Conseguirmos observar que pensamentos e opiniões são processos transitórios, que nos atravessam a mente, mas não são a nossa mente.
Conseguimos observar que até os próprios valores, segundo os quais nos pautamos, se vão reorganizando em diferentes prioridades, a cada fase da nossa história de vida, cuja narrativa se altera.
Tudo se transmuta e talvez amanhã a forma de ver o mundo já será diferente da de hoje. E é extraordinário podermos viver determinado personagem em determinado momento, e depois ser outro diferente, sem ficarmos presos a nenhum deles. Entender que a Persona, assim como o Ego, é um veículo que nos facilita na interação com o mundo.
Somos o ator por trás da máscara e não a máscara em si. E por detrás dessa máscara, de todas as máscaras, talvez a partir do exercício de observação de nós mesmos, nós consigamos entrar no silêncio. Um silêncio interno. E silenciar tudo aquilo que o Self não é. E é quando silenciamos tudo aquilo que o Self não é, que nos conectamos com a nossa essência.
E isto traz-nos liberdade em relação à persona. Não se trata de abdicar dela. Mas sim de saber quem somos em essência; ou, ao menos, tentar buscar a conexão com a nossa essência, por detrás de todo o ruído, de todas as condições, de todas as personas.
E quanto mais profundamente nos conhecermos, melhor a nossa persona expressa, comunica e representa quem nós somos.
E quanto mais profundamente nos conhecemos, mais livres seremos para representar diferentes papéis, sem nos desconectarmos do nosso verdadeiro eu.
Vânia Cardoso

