O Retorno de Perséfone

Para assinalar a efeméride que é Páscoa evocamos Perséfone – e o seu mito – nesta obra pré-rafaelita. Perséfone é uma figura feminina mitológica, intimamente ligada às representações arquetípicas da fertilidade.

A Páscoa, enquanto celebração ecuménica, com datas diferentes em cada ano, é sempre celebrada a seguir ao Equinócio da Primavera. Esta celebração faz comungar várias religiões, circunscreve elementos antropológicos de diferentes culturas e integra os mais variados ritos, de forma mais ou menos anacrónica. Levando a confluir uma série de aceções numa complexa interceção de símbolos com origens muitos diversas. Esta celebração ecuménica traz-nos símbolos tão díspares, religiosos e pagãos, que nunca se fundem e que, só com muito esforço, conseguimos integrar: Diferentes sequências de cores, usadas nas cerimónias religiosas. A representação de Água, Sangue e Fogo; ungidos considerados sagrados; cordeiros; vias-sacras; martírios e penitências; ressurreição. Significados como ritos de passagem, superação e aceitação de algo devastador (luto), perdão, libertação e renascimento, estão também presentes, conferindo-lhe uma profunda dimensão psicológica. A Imortalidade divina. E a imortalidade simbólica do humano, que se inscrevem sob o(s) signo(s) da Morte, (Vida e Renascimento). E há ainda os ovos, os coelhos, a referência às luas e os ramos flores ancestrais, simbolizando Abundância e Fertilidade, e tudo quanto a Natureza é. Efetivamente, Fernando Pessoa escrevera, num dos seus contos: “A humanidade é pagã. Nunca qualquer religião a penetrou.

Perséfone, filha de Deméter e de Zeus, teria sido raptada por Plutão, rei de Hades, e teria desaparecido para o submundo. No mito original, a sua mãe, Deméter – figura arquetípica da Mãe – lamenta profundamente o seu desaparecimento e inicia uma busca incessante para recuperar a jovem, lançando um mal ao mundo até que Perséfone reaparecesse.
Durante nove dias e nove noites a deusa procura a sua filha, sem qualquer pista. Enquanto Deméter procura Perséfone, desaparecida, a terra fica sem vegetação e sem fertilidade. Inclusivamente, há representações pictóricas do mito, fazendo alusão ao luto de Deméter, pelo desaparecimento da filha. Esta consegue reavê-la, mas não mais como antes. Antes, a menina tinha o amor, a proteção e a satisfação das suas necessidades que só a Grande Mãe poderia proporcionar-lhe. Plutão permitiu o retorno de Perséfone, mas deu-lhe, previamente, para comer uma semente de romã (que na lenda que representa simbolicamente a Sexualidade). A passagem da menina para um mundo diferente e em contacto com o masculino, faz estabelecer um compromisso, no qual o mundo muda para sempre, e Perséfone torna-se a figura central de um novo ciclo, o do renascimento. Perséfone emergia agora debaixo das terras, na Primavera, trazendo vitalidade, alegria, prosperidade e abundância. Numa espécie de acordo tácito, passaria então Perséfone a viver metade do ano junto de Hades, “debaixo da terra”, e na outra metade emergia, trazendo a natureza verdejante. “Morte” e renascimento não mais são mutuamente exclusivos, antes coexistem em ambos os mundos.
Perséfone seria a rainha do mundo dos espíritos, onde existe o que há de mais profundo no psiquismo humano. Vivendo parte do ano em Hades, portanto em contacto com conteúdos reprimidos, estando num fase profunda do mundo inconsciente – não sendo nunca totalmente inconsciente nem totalmente consciente.

E há quem se filie na ideia de que ambas as deusas, Deméter e Perséfone, representam os vários aspetos de uma mesma mulher, da sua integração, que acolhe todas as suas partes, etapas e ciclos.
O mito, além da fertilidade, representa a demarcação, o marco de uma nova etapa, a oportunidade de um recomeço. A mensagem subjacente seria a de que é necessário deixar que algo se perca, se desmorone, ou se transforme, num ritual de passagem, para acolher uma nova fase: de renovação, de compromisso, de amor, de integração, da vida, enfim, dos humanos, na sua plenitude, com tudo o que isso encerra.

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